Posto abaixo, uma entrevista feita com Kassin, músico e produtor musical que já trabalhou com artistas como Los Hermanos, Thalma de Freitas, Adriana Calcanhoto, Vanessa da Mata, tendo também seu projeto próprio chamado Kassin + 2 (Moreno +2, Domenico +2). Ele fala sobre sua entrada no mundo da música. Fala também do remix que ele fez de uma faixa de Caju e Castanha, no álbum Mauritsstadt Dub, onde ele utilizou o programador do Game Boy para sintetizar os sons da batida que ele adapta ao som das vozes e das violas dos pernambucanos. Além disso, conta histórias de sua viagem para a Jamaica, onde ele foi gravar o cd da Vanessa da Mata e pôde conhecer os famosos estúdios da ilha.
Qual a sua profissão?
Minha profissão?
É...
Produtor musical, pode ser...
Como você entrou em contato com o dub?
Boa pergunta. Eu me lembro quando eu entrei em contato com o reggae mas não lembro quando eu entrei em contato com o dub. O reggae eu tava assim com uns 16 anos, mais ou menos. Aí eu ouvi um disco do Bob Marley, eu lembro que não entendi nada. Eu lembro muito dessa sensação de não saber aonde estava o tempo. Levei um tempo pra me acostumar com aquela idéia.
Cláudio: Mas antes você ouvia o que?
Eu ouvia muita coisa, tinha muito disco. Mas, o reggae não fazia parte dos meus gostos. Eu ouvia muito Kraftwerk, sempre ouvi. Meu irmão fazia discotecagem então tinha muito funk e soul em casa, disco, esse tipo de coisa pra tocar em boate do fim dos anos 70 até primeira metade dos anos 80. Então, tinha muita coisa de rock inglês, aquele rock inglês dançante... sei lá... tipo Joy Division, The Smiths, esse tipo de coisa tocava pra caramba lá em casa. Meio que uma coisa que ele ficava trazendo pra trocar nas boates onde ele discotecava. Tinha muito essa coisa de ouvir muitos discos e discos de alguns estilo assim. Nessa época ele era Dj quando eu tava mais ou menos com quatro anos, ele tava começando em 78, e eu com 15 ele faleceu. Eu herdei a coleção de disco dele, e eu já tinha muito disco também, então eu tinha uma quantidade de disco em casa grande assim. Mas reggae não era mesmo uma coisa que fazia parte do meu vocabulário porque não era tão popularizado no Brasil naquela época. Depois até eu fui ouvir coisas que eu conhecia já que eu identifiquei como sendo reggae, como músicas do Steve Wonder, coisas do Eric Clapton, que tinha um acento reggae, do Rolling Stones. Mas reggae mesmo, eu comecei a ouvir a partir de uns 16 anos. Que eu acho que tem há ver também que foi quando começou a ficar popular na classe média.
E o dub você...
Veio depois. Eu ouvi um disco que um amigo meu trouxe do Keith Hudson, que era um dos primeiros discos de dub por sinal. Tinha um disco do Linton Kwesi Johnson, aquele poeta inglês. Ele tinha a versão do disco dele...Bass Culture. Você sabe esse disco? Um disco com uma capa branca e o desenho dele descendo uma escada. É legal assim... é tipo uma parada dele falando.
Dub poetry?
É... e aí tinha uma versão de estúdio e uma versão dub com Dennis Bovell, já de dub inglês.
Já na Inglaterra?
Mas eu acho que quando eu ouvi dub, aquela parada, de algum jeito era uma maneira diferente de ver o reggae. Eu não achava que era outro estilo. Eu achava que aquela maneira já estava disseminada assim. Ou no Joy Division ou nessas coisas, tinha muita coisa de dub. E os anos 80 em geral tinha muita coisa de dub, tipo Pill, Pill tinha muito elementos de dub de linhas de baixo de reggae.
Mais uma forma de gerar novas fusões do que um gênero assim determinado?
É, mais uma maneira de pensar do que um gênero.
Então como você definiria mais ou menos o que você acha que é dub?
Eu acho que é um ponto de vista.
E como você entendeu essa proposta do álbum, Maurittstadt Dub?
Engraçado. Eu tava ouvindo você contar a história do disco e eu até que discordo um pouco de você. Mas o disco, quando chegou para mim era um disco de remixes. Ele não era especificamente de dub. E ele me passou os tracks do Caju e Castanha e falou: “Faz alguma coisa que você acha legal em cima disso.” Eu acho que até a para que eu fiz não tem muito de dub. É uma faixa feita dentro do Game Boy.
Mais dentro daquele esquema do seu trabalho Artificial?
É...
Então... Fala mais ou pouco desse seu trabalho Artificial?
Foi um disco todo feito dentro do Game Boy e voz.
Só Game Boy e voz?
Só Game Boy e voz. Tem teclado em duas músicas só, eu acho.
Cláudio: Você utilizou bastantes jogos que tivessem sonoridades e tal?
Não. Eu tenho cartuchos que permitem o acesso ao chip de síntese de dentro do Game Boy. Que tem quatro canais. O Game Boy é mais ou menos que nem uma pianola. Ele tem a possibilidade de tocar. Como os cartuchos antes não tinham muita memória, ele tinha um gerador de sons dentro dele, que era um sintetizador primitivo. E aí o que vinha no cartucho era informação do que aquilo deveria tocar. Então o próprio Game Boy pode gerar quatro canais de síntese dentro dele.
E como você tira o som de dentro do Game Boy?
Saída de fone, de dois canais.
Você falou que você acha que aquilo que você fez nem tem muito a ver com dub. Mas, porque você acha isso?
Eu acho que tem uma idéia, mas é mais um remix do que propriamente dub. Não tem muita pilotagem de efeitos.
Nem tem muito delay também?
Nem tem muito delay, não tem muito entra e sai de coisas, não tem filtro.
E outra coisa... quando eles gravaram lá, é uma forma humana de execução. Então você colocou uma batida eletrônica e você foi mais ou menos acompanhando no Game Boy junto?
Eu editei.
Você editou muito pra entrar na sincronia?
Pra conseguir caber.
E o pandeiro você?
Editei.
Fez um loop? Ou...
Eu fui...pra não ficar muito duro eu fui aconchambrando os trechos. Eu ia acertando, onde dava merda eu acertava.
E como você acha que foi, no final?
Eu acho que foi bem. O próprio Game Boy ele não é muito constante, sabe? Ele tem um oscilação de tempo. Ele tem um negóco que é engraçado... Ele tem uma parada.... que você diz pro sistema dele o quanto vai ter entre o tempo 1 e o tempo 2 o tempo 3 e o tempo 4. Ele não é linear. Ele pode ser linear como pode não ser. Tinha essa opção. Eu me lembro que o cara sempre errava um pouquinho o tempo quatro, aí eu chegava o tempo 4 um pouco pra trás também.
Você sabe se o Caju e Castanha ouviu?
Não tenho a menor idéia. Mas, eu até queria saber o que eles pensaram. Você me conta, se você for encontrar com eles. Engraçado que eu já curtia pra caramba o Caju e Castanha. Eu tinha vários discos deles, assim.
Eles já eram famosos.
Já era uma parada que eu ouvia em casa assim. Quando veio aquela parada eu curti pra caramba fazer esse aquele aí.
Você contou que fez outra música também na época.
Eu tinha feito outra música, que eu não me lembro mais qual.
De outro grupo?
Não do Caju e Castanha também. Vieram duas sessões do Caju e Castanha e eu acho que eu fiz as duas.
E como você recebeu o material?
Sessão de Pro Tools.
Eles mandaram o que? Por correio?
Não, Pupilo passou lá no estúdio e deixou, aqui no Rio.
Então foi o Pupilo que entrou em contato.
Foi.
E aí esse foi o único encontro que vocês tiveram pra...
Pô, mas a gente já se conhece a muito tempo. Já é amigo, então não tem muita.. a gente se vê de vez em quando. Pra falar da parada foi isso. E aí depois eu mandei pra ele por e-mail, ele ouviu. Eu acho que eu terminei essa parada no Japão, eu tava no Japão assim perto da finalização. Aí eu mandei por e-mail. Eu me lembro disso. Demorou um tempão, a Internet tava meio lenta. Tinha esse negócio que eu mandava, eu fiquei o dia inteiro mandando quando era de noite, ele só respondeu muito tempo depois.
Mas você fez isso em lugares diferentes, essa produção?
Eu fiz no Lap Top. Eu programei no Game Boy, eu tinha a sessão deles lá dentro, no Pro Tools rodando, e aí eu passava tudo do Game Boy pro computador, as programações.
O primeiro Cd é o Caju e Castanha que aparece como autor e no segundo Cd é você e o Berna Ceppas. Como você vê isso?
Como autor é? Faz tempo que eu não pego nesse cd... Como autores não. Como performance né?
Deixa eu pegar aqui... Eu não sei exatamente como ficou a divisão da autoria no CD.
A autoria é deles.
A autoria é deles e vocês entraram como performance?
A gente não fez nada. Aquela parada é deles. É demais!
Como você vê essa parada do remix e da autoria. Você falou isso, mas tem essa coisa, no álbum de dub às vezes o produtor é a estrela.
Dependendo do caso. Nesse caso é bem esboçada a parada deles, o lance tá ali. Não é uma coisa que eu tirei todos os elementos deles e aproveitei só a base. Tá tudo ali.
Vocês acham que a coisa tá ali e vocês fizeram um acompanhamento só.
É...
Mais como se fosse um instrumentista participando.
É... e o tipo de som que eles fazem tem muita abertura pra isso também. Só pandeiro e voz.
Não tem tantos elementos pra você brincar... Pra você perder o que tá ali... a parada é bem...
Então nesse sentido se afasta um pouco do dub mesmo?
Eu acho que sim! Mas nos caso deles se eu fosse fazer alguma coisa com algum elemento ia ser o que? Só pandeiro e delay ( risos). Pra ter alguma autoria assim, não faria muito sentido.
Eu tava vendo... Você participou de um projeto chamado Pará Planetário.
Pará?
Para planetário.
Para planetário é.
Aí você foi pra lá gravar uns negócios de guitarradas, e parece que a idéia era meio que parecida com o Maurittsstadt Dub, não era? Um cd duplo...
Não, mais ou menos. A idéia desse projeto era que ele fosse um disco, mas ele não ia ter a parte regional. Não ia ser espelhado. Ele era só a parte com interferência. Agora o governo do Pará naquele momento, eles estavam lançando vários discos de mestres da guitarrada, os discos das pessoas que estavam sendo gravadas pelo governo, eles estavam saindo já desse jeito... La Pupunha...
Cláudio: Aldo Sena...
Aldo Sena... Essas coisas todas estavam saindo, discos deles, patrocinados pelo governo do Pará. Aí eles queriam fazer um disco de toda aquela cena com interferência. Essa era a idéia. O que aconteceu com esse disco, foi que ele acabou não saindo. Ficou pronto, mas acabou não saindo. Que mudou o governo, essas coisas.
Cláudio: Era o Nei Messias...
Era o Nei, é. O disco chegou a ser masterizado e tudo. A gente mixou e masterizou. Aí mandou pra lá o cara falou: “A gente tem que ver, que vai mudar o governo. Tem que ver o que vai acontecer”.
Cláudio: Era o Nei, e aí entrou o PT agora.
Você chegou a ouvir o CD inteiro?
Esse?
É...
Esse eu ouvi.
Umas da questões que eu pretendo tratar na minha dissertação é a autoria. E eu ainda não estou muito bem informado com relação à divisão dos direitos no Mauritsstadt. Na minha conversa com o Buguinha, a proposta que ele me passou foi uma coisa mais fiel ao dub mesmo, até mesmo porque...
É a onda dele...
É a onda dele. Você acha que nesse cd, independente do que foi acordado em termos mais burocráticos, você acha que autoria pode mudar, em uma determinada faixa o lance da mixagem pode ser mais autoral?
Mais extremo assim? Eu acho que em alguns casos pode acontecer. Mas eu acho que essa parada de autoria depende muito caso a caso. Depende muito do objeto em questão do que uma idéia. Pra ter uma idéia, tipo uma faixa de hip hop, se a programação é metade da música e a letra é a outra metade, esse tipo de coisa. Eu acho que é muito relativo pra cada caso. No caso do dub também. Por exemplo, tem algumas músicas que você pega alguns discos jamaicanos que é a mesma base pra não sei quantas músicas sabe? Tipo o stalag, o stalag tem uma caralhada... tem disco que a base é so stalag do início ao fim. Ring the alarm... bla bla bla (cantando). Fudeu né? A parada vai e não acaba.
Você tem mais essa coisa da recorrência de um determinado padrão?
É, de um determinado padrão. Ao mesmo tempo eu acho que isso na Jamaica faz muito sentido. Pelo jeito que é o mercado lá, e pelo jeito que é o comércio de música, faz muito sentido.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
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