domingo, 13 de dezembro de 2009

Entrevista com Kasin - Parte II

Na verdade você tem muitas intervenções em cima de uma música que esta circulando né? O cara faz esse riddim ai o produtor pode intervir, fazer várias versões, aí chega no sound system a música volta várias vezes, tem o toasting...

É legal, porque tem uma coisa viva assim. Eu fui pra Jamaica, sem ser... no final de... a gente tá quando? 2009? Acho que foi final de 2007.

Gil (amigo de Kassin): Você foi gravar a Vanessa da Mata?

É. Aí a gente foi em todos aqueles estúdios. O turismo da gente era ir em estúdio. E... fomos no sound system ver como é que era. Lá faz o maior sentido a parada. Tem um lance de música que é que nem pão... não tem muito LP...é tudo 45 rotações, da semana. O cara gravou aquilo, vai pra loja e na semana seguinte vai pro estoque.

É vinil mesmo ou é...
Vinilzinho 45, não tem nem muito CD. Tava começando a ter CD, no início mesmo. Loja eu não vi nenhum CD, só vi CD no aeroporto.

Mas era vinil mesmo ou era acetato?

(Entrevista interrompida)

Eles vendem isso aonde? É um comércio informal na rua?

Não, tem umas lojas. Mas as lojas são associadas aos estúdios, quase todas. A maioria é uma loja do estúdio, não é na rua.

Cláudio: Uma cadeia de produção, sai da loja vai pro estúdio.

Você toca a campainha o cara pergunta: “Você tá indo pra onde?”. “To indo pra loja”. “Ah. Vira ali à direita”. Tem um portão assim, as coisas não são na rua. Tem uma coisa... sei lá... aqueles caras tão lá. U-Roy... Chega lá tá o U-Roy na loja.

Saquei.

Aí o cara canta uma música lá pro cara. Ah...vamos gravar essa porra aí amanhã. Meio assim, sabe? É um comércio muito pequeno. Um exemplo, assim da parada. No dia que eu cheguei teve uma falta de luz. Teve um problema de luz, era segunda feira. A gente ia ficar exatamente uma semana. Aí a gente chegou no aeroporto, tava faltando luz. Absurdo. Não tinha nada acesso na cidade. A gente chegou no final da tarde. E tava tudo apagado. Chegou na cidade a cidade toda escura. Estranhão. Aí dia seguinte, chegamos no estúdio. Falou: “Pô, o que foi aquela parada ontem?” “É, tá tendo esse negócio de falta de energia”. “Chato essa parada né?”. “É, tá tendo recorrente, é meio que uma greve”. Aí beleza. Eu sei que nessa noite a gente foi no sound system, e começou a tocar uma música chamada Power Cut. Que já era em referência ao que tinha acontecido no dia anterior, sacou? No dia anterior teve uma queda de luz. No dia seguinte o cara gravou. E de noite já estava tocando Power Cut, no sound system, pra uma cabeçada. No dia seguinte eu fui na loja tinha um 45 de Power Cut, em vinil sacou? Porque a prensa é no próprio estúdio. Tem um lance, que a parada é meio que imediata. Não é... achar um lp lá, você vai no estoque e aí encontra uns Lps lá. E o resto é imediato. Aí já vem... o lado B é o instrumental e a capela. Aí passa uns dias já tem outra base em cima do vocal de Power Cut e já tem outro vocal em cima da base de Power Cut.

Cláudio: Você acha que essa velocidade é mais porque eles já tem muito conhecimento do processo produtivo deles assim ou mais falta de esmero.

Não... não é falta de esmero. É porque é uma ilha né? É um negócio pequeno. A zona sul é tipo a cidade inteira.

E essa cultura do riddim também favorece, você ter uma super produção.

Uma produção mais rápida né?

Você pega o riddim e bota outro cara cantando é já é meio que uma nova coisa. E como é a produção lá hoje em dia?
Tem pouca coisa tocada, muito mais programado.

Você acha que a linguagem do dub ainda está muito presente?
Neguinho nem pensa nisso, neguinho só faz a parada.

Não tem muito essa reflexão não.
Não tem muito conceito não. E meio assim... como se a Bahia fosse foda. Essa parte você corta. Tá? Tem aquele lance que o negócio vai acontecendo muito naturalmente. Neguinho só chega e toca. É tudo igual sacou?

Cláudio: Teorização é mais pro ocidente né? (risadas)

Rui (amigo de Kassin): Mas a teorização na maior parte das vezes cabe aos analistas mesmo. Cabe a quem tá tentando entender.

É, não é teórico. Os caras tocam daquele jeito. O lance é daquele jeito.

Eu queria desenvolver em cima dessa idéia de que o dub se solidificou como um estilo ao começar a ser apropriado na Inglaterra. Onde as pessoas ouviam os discos em casa, com um outro ouvido, como uma obra fechada, com um ouvido mais contemplativo. Um tipo de relação com a música que talvez seja um pouco diferente lá né?
Lá é o seguinte, a parada toca na rua assim. Não é um negócio, o cara vai e põe um disco de dub. Você acha os discos de dub. Aquele negócio tá tocando, é música comercial. É pra vender a parada. Não é...

Muito ligado a festas e tal?
Toca de noite. Você tá assim de noite e aquela porra tá tocando no rádio. Eu acho que isso é engraçado. Eu acho que tem uma relação assim de desenvolvimento de música, muito radical para países que são ilha. Tipo a Inglaterra, Trinidad Tobago, Jamaica, sabe? Esses lugares assim, esse lance de ser pequeno gera uma coisa sólida. Tem um negócio que os caras arranjam uma forma de fazer é vão ficando muito fodas naquilo.

Como uma maior coerência? Mas no Brasil você também tem uma concentração em certos lugares...

Cláudio: Em Belém eu percebi isso, como a galera faz o tecnobrega lá, é na pauleira também.

É... na moral... isso aí parece a Jamaica sacou? Na Jamaica é totalmente assim. Vamos fazer a parada sacou, mas não pode passar de meia-hora. Não vai escolher muito efeito. O cara liga o efeito e foi. Agora, os estúdios estão lá ainda, os estúdios clássicos todos... Studio1, etc.

Menos o do Lee Perry né? Ele queimou não é isso?
Ele queimou, a gente foi no lugar. É assim. É tipo a cidade acaba aqui, o estúdio é aqui depois de lá é campo.

Onde era o estúdio do Lee Perry?
É onde era o estúdio dele.

Agora ele tá na Suíça não é isso?
Agora ele tá na Suíça, é.

Teve um antropólogo Norman Stolzoff, que foi pra Jamaica fazer um trabalho etnográfico sobre a cultura do dancehall. Ele disse, que quando ele foi, a produção já era toda digital na Jamaica, pouquíssima coisa gravada.
No estúdio que a gente gravou o cara falou que não gravava bateria acústica fazia mais de um ano. Ele tinha uma bateria encostada. O Sly mesmo se amarra em programar, ele faz programando. Mas pra ele tocar eu tive que pedi, tipo: “Pô toca aí. Faz a parada tocando”. A gente tinha que insistir. A gente insistia pra que ele tocasse, porque por ele, ele programava a parada toda. Todo mundo lá se amarra em programar. Mesmo os caras da antiga, aquele cara Nambo, pro exemplo. Trombonista das antigas, que gravou aquelas paradas todas lá. Aquele naipe de metais que fazia todas as gravações lá. Ele mesmo programava. Ele foi lá tocar trombone e falou: “Eu faço minhas produções de dancehall”. Coroa assim, de cabelo branco. E botava lá pra tocar, só dancehall, tudo programado.

E nos sound systems agora é só dancehall?

Dancehall direto...
Não toca mais reggae...
Começando a tocar um pouquinho de grind assim. Tá ficando meio que mais nervoso, assim. Mais parecido com parada inglesa.

E os vocais?
Não, não. O vocal rolando, normal.

Aquele vocal mais agressivo de ragga?
Mais vocal de dancehall do que de reggae.

Cláudio: Mas eles programam como lá? Computador?
Depende... O Sly é MPC. Ele tem duas MPC 4000. Muito engraçado... tipo assim: “Porque duas? Ah uma é reserva!”. Como assim, grandão, trouxe aqui, montou. (risos)
E a relação com o reggae? Não rola uns shows de reggae.

Não, rola reggae. Aquelas paradas mais old shcool assim, você vai ver. Não é o que você vai ouvir em sound system. Tem sound system que é pra coroa. Que toca reggae mesmo, as vezes tem banda. Mas é tipo galera mais velha, meio estilão.

Tipo um baile né?
É isso, tipo um baile mais de coroa.

E como fica a relação da galera mais rica com o pessoal mais pobre? Existe essa idéia de que houve uma coisa meio parecida que com o funk. As camadas mais altas da sociedade começaram...
Mas lá tem muito menos classe intermediária. Não tem muito galera rica.

Mas os sound systems acontecem ainda nas regiões mais periféricas?
É... mas lá é tudo meio que periferia. Tem um bairro rico, que é onde tem os hotéis. Que já é muito ruim estar na rua. É tipo meio que um super pelourinho assim. Todo mundo numa onda erradona. Você sai é já tem uma galera: “Me dá uma grana, me dá uma grana”. É meio nervoso.