sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Criação e comércio: a cultura do dancehall comparada ao funk e ao tecnobrega

Estou publicando abaixo a primeira parte do texto guia da minha apresentação realizada hoje na REA (Reunião Equatorial de Antropologia). Queria agradecer muito a todos os participantes e presentes no GT de Música, Identidade e Fluxos Culturais, principalmente ao professor Edmundo Pereira que contribuiu demais com seus comentários.


Criação e comércio: a “cultura do dancehall” comparada ao funk e ao tecnobrega

Meu nome é Bruno Muniz e sou aluno do PPGSA da UFRJ, e atualmente estou pesquisando o dub para minha dissertação de mestrado, sob orientação do professor Marco Antonio Gonçalves. (falar da minha pesquisa, como eu venho fazendo, entrevistas, etc). Esta pesquisa sobre o dub me levou a refletir sobre a problemática da pirataria, uma vez que é uma das formas pioneiras de remix, e o remix muitas vezes é uma forma de apropriação não autorizada de outra música. Já que nem todos estão muito familiarizados com o dub eu vou explicar brevemente o que é isto.

O caso do dub é bastante ilustrativo. Inicialmente, a palavra era utilizada na expressão dub plate, um disco de acetato contendo em um lado a canção e no outro a versão dub sem a voz e muitas vezes alterada com efeitos de reverb e delay. Através das mãos de King Tubby e Lee Perry estas transformações ganharam notoriedade, e, começaram a ser consumidas na Europa, como um outro gênero derivado do reggae. Os efeitos e a estética minimalista do dub atraíram a atenção de jovens acostumados a ouvir o rock psicodélico dos anos 70.




Um acontecimento bem recente me parece ser uma boa maneira de introduzir as questões pelas quais passa o meu trabalho. A capa do Segundo Caderno do O Globo do dia 10 de agosto de 2009 fala da reação à lei que busca coibir os bailes funks, impondo exigências diferentes para que as festas desse gênero possam ocorrer. Eu acho incrível como a resistência à determinada manifestação popular possa atingir tamanha proporção, a ponto de se criarem leis que citem nominalmente este gênero musical que ficou conhecido como funk. Da mesma forma, as festas de sound systems na Jamaica também eram sistematicamente reprimidas pela polícia, e a resistência por parte da elite jamaicana com relação a esta música também era imensa. O sucesso mundial do reggae ajudou em parte a minimizar esta situação, ainda que não totalmente. Certamente, o ataque a estas festas não se deve somente aos decibéis emitidos, ainda que, sem dúvida, estas festas possam causar muitos transtornos aos vizinhos.

Este ataque parte de uma resistência a determinado tipo de manifestação popular constantemente representada como associada ao uso de drogas, à violência, à promiscuidade, etc. Contudo, nada disso é de maneira alguma exclusividade de festas funk. Boa parte do problema reside na pobreza, no preconceito contra o pobre. É claro o quanto, por exemplo, o tecnobrega sofreu com o preconceito das elites paraenses. Isso, pelo menos, até recentemente. Agora, com o sucesso nacional do estilo, ele parece estar sendo retomado como símbolo daquela região, algo importante para a identidade daquelas pessoas. Inclusive, músicos e produtores, muitas vezes oriundos das classes mais altas, começam a flertar com as batidas do brega misturando-as com outras tendências musicais.

O interessante de lembrar do tecnobrega é o fato de ser uma música muito popular entre as classes mais baixas do Pará e contra a qual houve resistência por parte daqueles com maior poder aquisitivo, sem, contudo, estar tão constantemente relacionado ao uso de drogas, à violência ou à promiscuidade. Mas, poderíamos lembrar também do samba, como fez a intervenção editorial do jornal O Globo, sem mencionar, contudo, que a repressão ao samba veio acompanhada de uma repressão contra muitos outros hábitos associados aos negros, como o uso da maconha e as religiões afro-brasileiras. A repressão à maconha permanece, as religiões afro parecem receber maior respeito hoje em dia. Contudo, em tempos de choque de ordem no Rio de Janeiro outras práticas associadas aos mais pobres também são alvo de violentos ataques das autoridades: como os camelôs, as vans piratas e os piratas de CDs.

Eles são acusados de causar a desordem urbana. Os últimos também são acusados de violar os direitos autorais garantidos por acordos internacionais e organizações multi-nacionais. A cópia destes conteúdos é considerado um atentado à propriedade intelectual dos criadores de softwares de computador, filmes e músicas.

Não podemos esquecer que o tecnobrega e o funk são bastante divulgados através da venda feita por piratas. No tecnobrega, como relata Ronaldo Lemos e Oona Castro, esta comercialização pirata já é inclusive considerada como parte da estratégia de divulgação dos artistas. Já na Jamaica, os dub plates eram no começo prensados sem nenhuma informação no selo, em branco, e circulavam totalmente na informalidade.

Entrando um pouco na parte mais teórica. A reflexão sobre mimesis e alteridade desenvolvida por Michael Taussig é central neste trabalho. Ele busca recuperar Walter Benjamin, ao mesmo tempo em que tenta desarticular esta associação muito forte no pensamento de Adorno e Horkheimer entre passividade e mimesis. Michael Taussig realiza uma história da faculdade mimética onde esta é pensada como a natureza que a cultura utiliza para criar uma segunda natureza, indo um pouco na contra-mão da tendência construtivista das ciências sociais.

A discussão sobre mimesis realizada por autores como Taussig e Alfred Gell nos permite pensar bem a música. Me parece adequado pensar o direito autoral como um destes dispositivos que claramente tentam exercer algum controle sobre a atividade mimética. Como coloca Taussig, pensando em termos de uma história dos sentidos, houve num determinado momento uma passagem da mimesis para um controle organizado da mimesis. A desconfiança com relação a mimesis possui uma longa história na tradição ocidental que nos remete a Platão, por exemplo, para quem a cópia nunca chega a se equiparar ao original.

Michael Taussig e Alfred Gell, em grande parte apoiados em Benjamin, parecem apresentar uma visão diferente em relação a mimesis do que aquela de desconfiança vigente em certos períodos da história da arte no ocidente. O pensamento de Walter Benjamin considera a reprodutibilidade técnica como uma ameaça ao contexto orgânico de manifestações tradicionais, uma ameaça à autenticidade. Contudo, não me parece que ele deixou de notar os potenciais artísticos e renovadores da reprodutibilidade técnica. Bruno Latour e Antoine Hennion apresentam severas críticas a Benjamin, exagerando um pouco o caráter destrutivo da técnica na obra do autor alemão. Acusam-no, também, de defender uma posição excessivamente romântica da arte.

Para Benjamin a aura está ligada à autenticidade, assim como à unicidade da obra e ao reconhecimento de seu pertencimento a uma tradição, contudo, é possível uma leitura menos focada nestas questões. A própria técnica não é vista por Benjamin como inimiga da arte, mas sim como um aspecto constituinte da modernidade que deve ser utilizado principalmente com fins revolucionários, mas através da arte. Em sua conferência “O autor como produtor”, ele afirma a importância do domínio da técnica para que os meios de produção possam ser modificados, e isso somente poderia ser alcançado mediante a eliminação da oposição entre intérprete e ouvinte, técnica e conteúdo. De uma maneira geral: “o aparelho é tanto melhor quanto mais conduz consumidores à esfera da produção, ou seja, quanto maior for sua capacidade de transformar em colaboradores os leitores ou espectadores”.

Vivemos hoje uma situação na produção musical na qual cada vez mais consumidores se transformam em produtores. Esta distinção vem lentamente se tornando cada vez menos importante. A música eletrônica é feita através de montagens, e, hoje, muitas pessoas estão se dedicando em suas casas a criar através de softwares de computador novas músicas a partir de materiais pré-existentes.

Vou postando aos poucos as outras partes da apresentação....

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