Entrevista com Buguinha - Parte II
E me fala um pouco daquele projeto que você fez no SESC, gravando as bandas na fita, ao vivo, e depois “adubando” na mesma hora para o público.
Foi um lance inédito. A gente gravou ao vivo o show dos caras. Na quinta foi Instituto, na sexta Mundo Livre e no sábado a banda Eddie. Houve o show normal dos caras, só que eu levei o estúdio pro meio do SESC: gravador de rolo, mesa analógica... gravei ao vivo. Quando terminou, voltei a fita, que eu gravei em analógico e em Pro Tools, meti play e fiz a versão dub ao vivo do que você acabou de ver. Computador ligado só pra back-up. Foi massa.
E como foi a resposta do público?
Muita gente não sabia nem o que estava acontecendo. Foi uma produção massa, numa boa, com uma galera que sintetiza muito a minha vida. O Eddie foi uma das primeiras bandas que eu gravei em estúdio. Minha primeira banda, que toquei bateria, foi com Fabinho na guitarra, do Eddie. Tem uma coisa de história. O Mundo Livre foi a primeira banda, já no Manguebeat, que eu fui viajar pelo mundo mesmo. E o Instituto é a banda de Ganja, que sempre me deu uma força lá em Sampa, que sempre teve na coligação com o Otto. Então fechou-se um elo muito bom.
E a influência do dub nessa galera sempre foi muito grande?
Tem muito. É porque a gente pega um pouco de tudo. Não da pra pegar só uma coisa. Porque a gente é meio doido, gosta de tudo um pouco. Ao mesmo tempo não gosta de nada. Você cansa da sua música, vai ouvir outras coisas, e vai reciclando. Eu gosto de muitas coisas, tipo o Brega mesmo, lá de Pernambuco. Tem uns Brega eletrônico, Tecno-brega, aquilo é louco demais. Você ouve uns beat assim... (cantando batida de tecno brega). Se você transforma aquilo, dá uns beat muito bom. E aí tem tudo isso que eu curto. Fora a Jamaica, tem o Brasil inteiro. Música de rua,som de rua gosto muito, ruído, viajo em ruído. Faço muito trampo com Lirinha, o espetáculo Mercadorias e Futuros a gente fez a trilha junto. É bem uma pesquisa disso, sonoridades, ruídos. Ritmo e poesia como ele fala.
E aquele lance de “adubar”...
Porque tem isso, velho. É uma coisa meio de escanteio, os periféricos que eu uso, eu gosto de misturar com a parte digital. Não uso só analógico, gosto de misturar também. Usar plugins, saio misturando tudo. Essas coisas antigas que a gente usa, foram muito jogadas né, sucateadas. E hoje, até valorizou um pouco. Nesse caso a história do adubar é isso, é o que fertiliza. Onde é que nasce a planta? É na bosta né? Onde a turma despreza. Bosta, bosta... porque as vezes tem isso né. Você vai usar umas coisas velhas e ai o pessoal vem dizer, mas esse equipamento é uma bosta. Veio disso assim. Então vamos adubar, melhor deixar a bosta. Fui gravar o disco do Eddie em fita, e ai o caara do estúdio veio dizer: “se eu fosse você fazia o contrário, mas você ai que é o produtor, eu estragava depois”, me disse ele. Tá ligado? Eu digo: Me deixa estragar antes, eu gosto é de estragar antes. Já deixa eu adubar antes, jogar o balde de merda aí. (risadas)
Qual a diferença que você acha entre trabalhar em analógico ou digital?
Diferença tem. Se é melhor ou pior não sei lhe dizer. Eu gosto é de fazer. Muita coisa minha foi feita em digital também. Então é isso, eu mixei em Pro Tools também o meu disco, várias faixas. Eu não tenho essa parada. Porque a fita já me dá uma compressão mais rápida. Então se eu vou gravar uma parada e quero usar compressores, mas não tenho acesso a esse equipamento de primeira, a fita é uma coisa do caralho. Porque você já usa a própria compressão da fita de acordo com cada nível de entrada. Se você quer um som mais prancha, um som mais distorcido, na fita já vem quente. Isso se você não tiver muitos periféricos vintage bons. Essa é uma vantagem da fita. A sonoridade realmente é outra, remete a uma coisa mais antiga. Nada que no digital você também não assemelhe, com bom gosto você tira também.
Mas durante o seu trabalho, quando você usa um equipamento analógico ou digital, qual a diferença que você sente na operação mesmo do equipamento?
Eu não vivo sem os dois. Gosto dos dois. O Pro Tools, por exemplo, é uma ferramenta muito boa pra mim. Pode ser outro programa também que tem muitos bons por aí. Só que eu aprendi no Pro Tools. Eu mixo nele, eu tenho mais uma manha nele. Mais do que até o próprio analógico, tudo aberto na mesa, isso eu gosto de fazer mais ao vivo, que é de onde eu vim mesmo. Estúdio às vezes eu faço e quero fazer outra melhor. Entendeu? Um quadro não tem como você definir um quadro, pô essa arte é melhor do que aquela. Porque esse pincel aqui, esse amarelo, azul, essa outra cor. Você faz um quadro tá ali pra cada pessoa ouvir e dar a sua opinião. Entender de cada forma, cada pessoa vai ouvir de uma forma. Meu disco a mesma coisa, cada um bate o olho de um jeito. Escuta uma coisa, tem mais detalhes, vai prestar atenção em vários detalhes. Eu gosto do digital aprendi a mixar nele mesmo, na real. O ao vivo é que eu já faço com a Nação, fiz com o Mundo Livre, e essa parte da Vitrola. Uma vez passou, passou a versão. Não tem como ficar repetindo.
Cláudio: Com o digital você consegue chegar num lugar que considera ideal porque você tem a possibilidade de voltar várias vezes, e no outro foi já era.
Buguinha: É. Eu tenho a possibilidade de passar um pente fino. O analógico você vai lá e faz, tipo no CD de Lucas Santanna. A faixa foi feita nessa vibe. Você faz, depois não posso brincar mais com o pans, pirar mais. Você tende a terminar e ganhar em muitos momentos da música, mas perder em outros. Eu faço alguns assim. Mas pô, é foda. Você ouve e pensa: essa aqui tá do caralho, mas no final, por causa de um fade, você errou o nível vai e estoura tudo. Tá entendendo? Ai vai fazer o que? Gravar outro e picotar? Não gosto disso. Faço um quadro, tá aqui. Aí venho fazendo o que? Pan, volume, dentro da base, pra ter harmonia mesmo na música. Música tem que ser gostosa, os efeitos tem que vir tirar você do sério e trazer você de volta, pra um campo legal. Não pode ficar só na píração. Tem os espaços de todo mundo. Tem hora que eu piro pra caramba, depois deixo só a música, aí vem o groove. (pam-param-param, cantarola uma melodia) Saxzão daqueles! Tem que ter espaço pra turma curtir, não pode ser só chapação. É bem isso negão. O analógico fez já era, erro uma coisinha ali, já era, acabou.
Mas acontece muito de enquanto você está fazendo o mix ao vivo, você pensar que o take saiu ruim, que você falhou em algum momento, mas na hora de ouvir perceber que era aquilo mesmo que você queria?
O dub vem da falha. Rola isso quando você distorce um sinal. Mas, às vezes é erro de máquina, é sinal, erro de máquina. Você tá no meio do negócio e dá um problema que não tem como salvar. O ideal é ter as duas possibilidades já montadas. O que eu não tenho. Tem que montar toda vez que eu vou fazer uma coisa analógica, eu paro faço umas quatro versões, escolho e ficam as outras lá. Eu queria comprar uma mesa pra mim pra já deixar tudo plugado, pra ter as duas possibilidades. Eu quero as duas possibilidades, o rolo já entrando no digital. Dou play no rolo já ta lá no analógico, se quiser eu transcrevo pra cá pra dentro e brinco aqui (apontando para o computador) depois. Ter as duas possibilidades. Porque daí vai dar vibe. Tendo a captação também analógica, aí são até bem vindas as estouradas. Aqui não, a distorção faz... (imitando um som desagradável de distorção digital).
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