No início de janeiro fiquei sabendo através de uma conversa por MSN com Buguinha Dub que ele estaria no Rio de Janeiro durante boa parte do mês trabalhando em uma peça chamada “Mercadorias e Futuro”. Encenada por João Paes de Lira, o Lirinha, cantor da banda Cordel do Fogo Encantado, que já trabalhou com o produtor anteriormente. Ele me perguntou sobre a possibilidade “agitarmos algo”, me avisando que já tinha uma apresentação marcada na Casa da Matriz, uma boate localizada na zona sul do Rio de Janeiro. Eu respondi que podíamos realizar um evento no Largo do Curvelo, uma praça em Santa Teresa, muito utilizada por diversos músicos que se apropriam do espaço para a realização de apresentações gratuitas. Depois de combinar com o restante dos integrantes da banda Laranja Dub, que costuma organizar eventos em alguns sábados durante a tarde, chegamos a uma data para a realização do evento.

Sua apresentação - conhecida como Vitrola Adubada - consiste em elementos pré-gravados em uma “jam” realizada no seu estúdio em São Paulo, lançados independentemente em sua mesa de som através de seu laptop. Linhas de baixo, peças da bateria, teclados, linhas de trumpete, percussões, entre outros instrumentos, são mixados e alterados através de efeitos como eco, delay, flanger, etc, tudo ao vivo. A qualquer momento ele pode tirar ou colocar um instrumento novo, construindo uma nova versão da música a cada vez que se apresenta. Este trabalho possui um exemplar acabado que consiste em seu cd, vendido a R$ 5,00 reais. Segundo ele: “É como se fosse um CD de celebração desse pessoal todo, onde eu trago a minha interferência. Uma cozinha bem reggae mesmo. Rolava uma jam, ai eu fui testando meu gravador de rolo. E ai saiu assim, de uma jam”.
Um dos objetivos da entrevista era obter informações sobre a produção do álbum Mauritsstadt Dub, um projeto no qual músicas de rua de Pernambuco são remixadas por produtores utilizando-se a técnica do dub. Publicarei aos poucos uma entrevista feita com Buguinha Dub, num momento em que ele veio para o Rio de Janeiro acompanhando a banda Nação Zumbi como técnico de som.
Qual a sua profissão?
Minha profissão, velho, é adubador de músicas.
Na real, velho, eu vim de técnico de PA; eu nasci dentro de sistema de som. Então, eu virei aquele técnico de PA, que é aquele que adereça as caixas que vão para o público, montar o sound system. É daí que veio produção e veio agora tocar com a Vitrola.
Como veio o seu contato com o dub?
Tava falando. Dub é o remix da Jamaica. Dub é muito antigo né, velho? No Brasil teve muito de remix também, são uns efeitos, umas coisas assim que também tem muito há ver com o dub, mesmo na década de 80. O próprio Paralamas já usava umas paradas assim. O meu contato com o Dub mesmo, Jamaicano, veio com o Nação Zumbi, Mundo Livre, quando eu comecei a viajar com os caras. E aí eles sempre tava tocando alguma coisa de Lee Perry, outro cara lá, aquele da escaleta... Augustus. Foi muito contato, daí é que eu fui entender a galera me chamar de Buguinha Dub. Por que os caras lá, uma das vertentes era usar uns efeitos, uns ecos, coisas que eu usava já na época. Mas não tinha noção do que acontecia lá na Jamaica. Inclusive, eu tive um estúdio chamado Estúdio 1 e não tinha nem noção que existia o Studio1 na Jamaica. O Eddie gravou a primeira demo lá, aquela de Quando a Maré Encher, no meu estúdio. E eu não tinha nem uma referência não, era mais uma viagem mesmo, eu curtia usar uns ecos, uns efeitos, a galera achava maneiro.
Uma coisa que eu achei bem interessante neste cd Mauritsstadt Dub é aquela coisa do “dub fora do reggae”, você pode falar um pouco mais sobre isso? E também como foi trabalhar com a “música tradicional de rua de Pernambuco”?
Pra mim, na real, foi massa. Pegar uma coisa de raiz e interferir. O processo é um quadro, como se fosse pintar um quadro. Você tem a obra aberta na sua mão e você vai interferir nela. Então vem na hora as paradas, eu vou pirando nas texturas. Não tem muito isso, de eu vou fazer isso e aquilo. Ai você vai sentindo a música. Uso alguns elementos, outros eu tirei.
Você fez a sua faixa com o Fred 04. Qual estúdio que vocês fizeram isso?
Eles fizeram isso lá em Recife. E aí mandaram pra mim aqui em São Paulo. Eu fiz aqui no meu estúdio em São Paulo e mixei aqui também.
Você teve algum retorno do Seu Bezerra, sobre o trabalho que foi feito, o que ele achou?
Não velho. Nossa vida é muito corre né? Essa já tá indo, e depois já tem um bocado ali na fila. Até hoje é assim. Eu não tenho noção do que aconteceu não. Tenho até curiosidade de saber.
Hoje tem se discutido muito essa questão do direito autoral? Numa música é o Seu Bezerra, na outra Zero Quatro e Buguinha Dub. No caso, o que você acha que determina a autoria de uma faixa da outra?
Nesse caso, especificamente, eu não sei qual é o critério. A administração foi toda do pessoal lá. No caso do meu CD eu dividi tudo igual. O cara vai lá, toca um apito, entra como todo mundo. Não tem isso do cara colocou a melodia, outro a harmonia, a letra ganha 50 %. Ninguém ganha mais, nesse disco meu em especial. Aí os outros eu entro dependendo da proposta. Não quero é fica de fora. No meu caso, eu dividi tudo igual. O meu até demorou mais por causa disso. Ia lá, voltava autorização, um em Nova Iorque, outro em Recife, não sabe onde tem cartório. O cara ta aqui no Rio, manda pra cá, vai no cartório, etc. Até o último momento foi difícil pegar essas autorizações.
Deixando um pouco de lado a questão legal. Mais seu sentimento mesmo. Você e a música que você ta fazendo. Por exemplo, quando veio esta faixa lá de Recife, depois que você alterou aquilo tudo lá. Como você se sentiu em relação à música?
Ô nego, você tem uma parte sua ali, seu sangue ali. Como se fosse seu sangue ali dentro. O contato com uma mulher é a mesma coisa. Seu sangue vai correr ali dentro dela. Me senti assim. Eu entrei na veia dela também. Quando eu interfiro numa música eu me sinto assim, parte dela como todo mundo ali.
Você acha que isso é com todos os dubs que você fez? Você sente de maneira parecida com outras músicas, seja música tradicional, reggae, você se sente igual? Ou não, algumas você faz com mais frieza, pelo trabalho mesmo?
Não. Quando a galera realmente chega a mandar faixa, entrar em contato comigo, já é porque está sintonizada com o trabalho. Nunca subestimo um trabalho. Quando a pessoa me procura ela já ta buscando um pouco estas texturas. Ela pode até nem ter um trabalho do passado que tenha esta interferência. Mas ele ta procurando naquele momento aquilo. É assim que eu vejo, então eu entro de cabeça mesmo. Porque é uma oportunidade também dele estar saindo dos padrões. Nunca fecho portas. Fulano procurou você. Vamos dizer... Sandy e Junior. Meu irmão, eles é que tão ficando loucos, velho. Não sou eu, velho. (risadas) É isso que quer? Então beleza! O cara é que ta me procurando. Vou acabar com a música deles. E isso que eu digo... Não fechar portas. Eu sempre entro de cabeça. É como eu falei, é como pintar um quadro. Jogou na minha mão, disse essa faixa é tua, aí já era.

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