quinta-feira, 23 de julho de 2009

Entrevista com Buguinha Dub - Parte III

Voltando ao disco Mauritsstadt Dub... Você foi e fez a sua parte separada. Não foi um projeto no qual as pessoas se juntaram muito?
Esse daqui? Não. Na real é o seguinte. O segundo já tá há mais de dois anos pra sair. É muita coisa envolvendo. Tem hora que neguinho pensa que a gente tem tempo. Ah... você não vai na palestra tal. Cada um tem sua missão na música. Sabe? Não dá pra generalizar. Tem gente que é ativador cultural, tem gente que mexe com ONG, tem gente que mexe com os índios, tem gente que vai no meio do mato. Alfredo Bello, por exemplo, que é um cara lá de Brasília. Ele tem um grande acervo de coisa regional. Ele é pesquisador, coisa que eu não sou, que os caras não são. Eles conseguem trazer eles para serem pelo menos conhecidos no meio de alguma forma. A função de Pupillo e do parceiro dele no selo é de pegar os tiozinho e trazer para o popular. Tá ali esquecido, mas eles vão lá e dizem: não gente, a música dos caras é foda, vamos lá. Aí vai, grava os tiozinho, bota... os tiozinho ainda ganham um troquinho de roylaties. Acabou. Manda a faixa pros menino. Cada um faz uma faixinha pra não ter tanto custo. Viabiliza um projeto, que vem trazer o que? Agora muitos outros vão lá pra pesquisa, ver, gravar os tiozinhos, saber da história, da cultura. Se hospedar no interior. Cada um tem sua missão na parada. Tem gente que é ativador, que corre pra frente. Feito a parada do dub mesmo. Neguinho fica às vezes pensando que eu sou da raíz do dub. Não sou não. Não vou gritar Jah Rastafari porque eu nem conheço a cultura direito. Como é que eu vou falar isso. A mesma coisa de eu falar Iemanjá, parara, parara. Eu vim de dentro, minha mãe era filha de santo, diziam lá que eu ia ser ogan, porque eu tocava lá. Mas eu não fico dizendo, Xangô, não sei o que. Porque cada um tem a sua missão. Meu negócio é celebrar. Trazer um pouco de diversão. Mostrar que tem várias formas de fazer música. Sabe? Estar fazendo uma celebração. Juntar tudo. Meu negócio é espetáculo, tem há ver com teatro, tem há ver com cena, tem tudo isso envolvido. Porque é de onde eu vim, da música de rua, do carnaval. Lá, com o Marcos Frota, onde eu trabalhei com esse filho de rapariga daqui ( apontando para seu parceiro de trabalho hospedado no mesmo quarto na cama ao lado)... no circo dele. Trabalhei no circo dois anos. Tive contato com Ulisses Cruz, que é diretor de teatro. Jorge Fernandes que é diretor de teatro. O próprio Cordel do Fogo Encantado é teatro. E aí, é tudo isso. Todas as influências que eu tenho ao meu redor. Na verdade eu quero fazer um grande bailão de carnaval com a Vitrola. Uma salada brasileira, só música brasileira, não só música brasileira, mas música universal independente do Brasil.

E quais as influências de música tradicional, canbomblé, maracatu, essas coisas no seu trabalho?
Deixa eu lhe falar. Influência eu acho que tá no groove. O groove é universal, o beat. Nele tocou o branco, tocou o cafuso, tocou o índio, tem tudo aí. Tem sangue de tudo quanto é lugar aí. Então, eu acho que as influências são essas. Um pouquinho de cada. Você vai ouvir e vai se encontrar. Tem uns que enxerga um negócio, outros que enxerga coco, eu não sei. Fiz as músicas que tava curtindo ali no momento. Nem fui por esse caminho na real. Teve uma que virou puta frevo aí. Que eu: Porra! Caralho! Já ouvia tanto, já tava tão acostumado. Que hoje eu consigo ouvir uma puta música lá no álbum. Que eu fico: “caramba, consegui fazer isso!”.

Você não fica separando as coisas na hora que você tá fazendo: vou botar um frevo aqui, isso ali...
Não, não, não... Jamais, jamais. Foi jam negão. As parte da música ficou, e aí vai surgindo, botando coisa em cima, quando viu tá ali a obra.

Rola isso mesmo... quando melhor entra uma influência é quando você não tava pensando...

Companheiro de quarto: Quando é mais desencanado, parece que é mais real. Você não tenta fabricar nada.

É porque tá no sangue. É natural. Sua levada é diferente, sua coisa é diferente. Quando o cara nota, outros de fora já enxergam: olha, essa levada. E a gente nem tá nessa. Sabe? Quando vê já foi negão. Pã-pã-pã-pã (cantando uma linha melódica de frevo presente no seu CD). Essa aí... dom-dom-dom (cantando uma linha de baixo) Começou baixo, bateria e teclado, tum- tum (bumbos de bateria), isso aí não é frevo. E aí eu... tugundum-tugundum..
Foi só colocar o gonguê. Num festival aí que eu toquei... que teve o Fluoresta. Peguei o gonguê do cara emprestado... tá ligado? E o ganzá. E aí fui lá pra cabine, ficar gravando lá. Meu Pro-tools a Digi, quando acabou a passagem eu fiquei lá... tugundum-tugundu. Picotado, porque eu não sei tocar direito né velho? E aí ficou um frevo, com maracatu rural. E aí foi quando Nico foi colocar o trombone. Não tinha como? O cara do maracatu rural, Cruzeiro do Forte. E aí ele botou a onda e eu pensei: “Caralho, que música do caralho”. Fizemos esse bagulho aqui, com a nossa cara... Aí eu pensei. Sabe de um negócio? Agora vou caracterizar! Peguei, botei um blocos de carnaval, com negócio do You Tube. Peguei do You Tube, tenho um microfone aqui. Gravei. Pronto. Meti a entradinha, e aí qual foi a parada que eu fiz? Ah é! Liguei pra ele. Pra fazer uma homenagem ao maracatu rural. Ô Nico, botei pra gravar no microfone, tem viva voz: “Olhe, como é que o negócio? O maracatu é Leão o que?”. Aí ele: “Leão não porra! É Cruzeiro do Forte!”. E eu: “Cruzeiro do que?”, “Maracatu - Cruzeiro - do - forte!”. Aí eu botei lá a parada, tá ligado? Ele falando.

Quando você recebeu a faixa lá de Recife, produzida pelo Fred e o Pupillo. Você sentiu que tinha já um dedo deles na faixa. Por ter sido feito naquele estúdio com aquela galera, já mudou o que seria a música do Seu Bezerra?
É...eles fizeram a parte toda de arranjo né? Fred Zero Quatro. A música já chegou interferida já, da original. Entendeu? Com alguns elementos. Daí eu acrescentei uns dois elementos, um beat ou dois. E aí eu comecei a enxergar mais como um quadro mesmo. Agora já sei como eu vou fazer. Entendeu? Mas quando chegou. Você escuta a música e ela lhe dá um retorce. Aí você tem que fazer o que? Afinar os ouvidos, queimando um verde. Pega uma brejinha na vizinha. Bota pra ficar repetindo. Aí vai começando a vir as influências. Vou cortar aqui, picotar aqui. Pega a tesoura e pega o pincel...(assovios). Põe isso aqui pra lá, limpa aqui...(assovios). Harmoniza tudo, passa o pente fino... Normalmente eu gosto de pegar o dia, pego, piro, encho com as paradas. E no dia seguinte, eu passo o pente fino. Tiro só o excesso. E aí a música tá pronta. Tiro só o excesso da parada, bota uma moldurinha e o treco pra pendurar.



Que efeitos que você usa mais?
Eu gosto muito do pedal da Boss o Space-echo. Que eu tenho o original, mas uso aquele reverb de mola dele, que o meu original já deu uma detonada de tanto sair na estrada. Tenho também o Chorus-echo, a versão mais nova do Space-echo, que tem chorus, aquele laranjinha de fita. Uso o meu pedal, que eu comprei aqui no Rio de Janeiro, não lembro a marca, mas é um kit caseiro de eco, muito bom. Uso meu reverb de mola Samsui. O Gradiente de vez em quando, dou uns tapa bom. Ele apanha. Mas, normal... Uso os plug-ins também. Vou juntando ali phaser, flanger, tudo que eu tenho de plug-in que eu puder ambientar, eu uso. Tem muito negócio comigo não.
Cláudio: E quando você fala: “botei dois beats na música. Beat seria o que? A definição de alguma levada nova na música que já existe?



É um groove, uma levadinha. Nesse caso do Mauritsstad rolou aquele: “Um Passarim quando está preso em uma gaiola, ninguém sabe com...” dum-dum (imita o som de um surdo). Tá ligado? Tinha uma caixa, aí eu botei um surdão e botei outra parada lá, e fechou meu groove. No do Cordel, o novo, eu botei um negócios também. Numa música nova que eu fiz, botei uma bateria eletrônica meio “skafadeza”. Tem outras formas também de trabalhar. Neguinho que pega só as vozes e cria outros beats. Como na do Scott que ficou muito boa também...(imita a batida). Pega a voz. Mas eu gosto de pegar a original mesmo, até pra dar essa cara mais dub mesmo. Mixar qualquer música. A turma me chama, da MPB também pra fazer. A turma vem me chamando. Eu tô dizendo: “esse pessoal tá ficando louco” (risadas).

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