Segunda Parte - O DUB
O dub surgiu em meio a cultura do dancehall, como estudado por Norman Stolzoff em sua etnografia “Wake the Town and Tell the People”. Desde os primórdios da música jamaicana com o mento, o ambiente onde as pessoas se encontravam para socializar, beber, fumar marijuana e principalmente dançar, eram chamados dancehalls. Durante a década de 40, devido aos altos custos de se contratar uma banda, pessoas começaram a tocar música em caixas de som ao mesmo tempo em que arrecadavam dinheiro através da venda de bebidas e a cobrança de ingressos. Estas equipes ganharam popularidade e cresceram, tornando-se um negócio imensamente competitivo, e até meio de manobra política: houve um momento na história jamaicana na qual certos sistemas de som eram identificados com determinados partidos políticos.
Uma nova tecnologia disponível, a gravação em dois canais, permitiu aos produtores a criação das versions, ao possibilitar que um cantor ou DJ interviesse em uma base gravada anteriormente. Essa possibilidade permitiu o surgimento de duas inovações estilísticas. A primeira, a gravação da voz dos DJ em cima dos riddims, inicialmente algum comentário elogioso ao sistema de som responsável pela gravação. Estes comentários começaram a ganhar cada vez mais espaço na música como forma de reproduzir a realidade dos dancehalls, onde os DJs costumavam realizar o toast - uma performance vocal que se aproxima mais da fala do que da expressão melódica tradicional do canto - durante as faixas sendo tocadas. Um dos mestres do gênero, U-Roy, tem grande mérito na popularização do toasting, que é considerado uma forma de precursor do rap, desenvolvido em Nova Iorque por jovens caribenhos, negros, entre outros grupos marginalizados.
A outra inovação introduzida por engenheiros de som como King Tubby e Lee Perry ocorre quando uma canção original é alterada por uma série de equipamentos de estúdio. O engenheiro de som altera todos os elementos dentro de uma música, modificando timbres e adicionando efeitos. As bases – conhecidas como riddims e normalmente identificáveis pela linha melódica do baixo - são reconstruídas através de técnicas de remixagem que limpam a música original deixando apenas seus elementos mais básicos, muitas vezes apenas o baixo e a bateria, dando origens às dub versions. Esta ênfase no baixo e na bateria é um dos elementos mais marcantes do dub, o termo drum’n’bass hoje muito utilizado para referir-se a um gênero de música eletrônica, começou a ser utilizado para referir-se a esta forma pioneira de remix. Esta opção pelo minimalismo, pela limpeza da paisagem harmônica, além de ter estabelecido uma base para o surgimento da música eletrônica, permite abrir espaço para improvisações, tanto do DJ, que realiza o toast, assim como também permite a experimentação com efeitos e a improvisação de outros instrumentistas. Neste sentido, Veal acredita que o dub é para o reggae, o que o jazz modal foi para o Bebop e o hip-hop para o funk e o R&B, uma forma de abrir espaço para a improvisação.
As dub versions são normalmente mais longas que as canções normais de reggae, além disso, os vocais aparecem picotados e alterados através de intervenções com efeitos como echo, delay, reverb, flanger, utilizados também nas peças da bateria, nos metais, nas guitarras e teclados. Propositalmente, são também introduzidos diversos ruídos para conferir uma atmosfera mais psicodélica. Ao menos é isto que acontece quando a “filosofia do dub” é aplicada ao reggae. O dub não é no seu momento de origem visto como um estilo, um gênero, ele é uma manipulação de sons já existentes feitas por produtores que buscam reciclar gravações e adaptá-las para outros usos mais livres e espontâneos, na maioria das vezes realizados no ambiente do sound system. As dub versions aparecem em um dos lados do dub plate e são utilizadas em performances ao vivo, pois permitem espaço ao toasting. Além disso, o dub ao ser utilizado na expressão, rub-a-dub, pode referir-se tanto a uma forma de canto quanto a uma forma de dança.
Tem-se, então, de um lado o sound system e do outro o estúdio, estes são os principais locais onde acontecem a música jamaicana. O dub na Jamaica apenas faz sentido ao ser compreendido dentro desta relação, dentro deste eixo estúdio-sound system. A produção é toda direcionada para o sound system, se as músicas não funcionarem lá, são deixadas de lado. Para Rodrigo Brandão, integrante do grupo Mamelo Sound System, ao falar sobre sua recente viagem para a Jamaica, isso não mudou: “Se o negócio não funcionou pra dançar, esquece meu amigo. Então, a coisa de dançar, de mover as pessoas continua sendo fundamental mesmo”.
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